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O candidato "passageiro da ilusão" - por Fabio Salvador

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Escrito por Redação ou por Colaboradores do Site   
02-Set-2008
Esta é a primeira parte de uma série que resolvi chamar de "Zoológico dos candidatos sem noção", retratando estereótipos de candidatos típicos, encontráveis em qualquer eleição municipal. Não trata-se de uma crítica direta a nenhum político real que eu conheça, e sim de perfis estereotípicos que eu fui identificando ao longo de alguns anos de vida pública.

O passageiro da ilusão é um novato na política. Ele se apresenta ao partido político como pré-candidato sem ter tido a preocupação de, nos anos anteriores, participar de movimento algum, de sindicato algum, de vizinhança alguma. Ele é aquele sujeito que vai de casa para o trabalho, e do trabalho para casa. De vez em quando, vai a uma festa, come fora. Mas não tem o hábito de "fazer uma social" com seus vizinhos. Não tem uma lista de apoiadores. E mesmo assim, enche o saco dos colegas de legenda para que seu nome seja aprovado na convenção que elege a nominata de candidatos. Como o partido tem vaga sobrando, o nome entra.
Joca é um desses candidatos. Uma vez confirmado como candidato, Joca partiu para sua campanha: mandou imprimir um monte de santinhos, deu alguns aos filhos, outros à esposa, meteu um montão deles no bolso. E começou um esforço mental para lembrar de todos os amigos e conhecidos que poderiam dar-lhe votos. Como a lista terminou pouco extensa a, resolveu então forçar mais a memória e incluir na lista de "votos certos" até a lojista que o atendeu duas vezes com simpatia, o dono do bar perto de casa no qual ele nunca vai. O dono da locadora onde pega filmes de vez em quando.

Joca sai para caminhar pelas ruas com santinhos nos bolsos. Pára no bar para tomar café da manhã (ele que jamais havia feito isso fora de casa), e dá um santinho para o Manoel, dono do estabelecimento. Joca chega a pensar por alguns instantes em dar um pequeno discurso, pedindo votos aos outroas 5 freqüentadores do bar, mas sente vergonha e desiste. Em seguida, sai e vai até a banca de revistas. Lá, pensa em pedir o voto ao dono da banca, mas acaba apenas conversando fiado por uma hora sem tocar no assunto. No final da conversa, deixa um santinho, de maneira tímida, e sai.

Acontece que Joca não apenas esquecera de organizar uma base, mas também esquecera de definir seu perfil. Mas afinal de contas, ele é morador da mesma rua há 10 anos! Pode então arvorar-se no papel de defensor do bairro! Pelo resto da manhã, Joca caminha pelas ruas da redondeza, deixando santinhos nas caixas de correio, sem falar com ninguém. Quando algum conhecido o vê, ele esconde os santinhos, morto de vergonha. "Não é a ocasião certa para falar com esse aí", pensa. Lá pelas 11h, resolve ir para casa.

Na reunião do partido, Joca é maioral. Ao falar para os companheiros, diz coisas como "vou fazer pelo menos mil votos! No meu bairro, moram umas mil e quinhentas pessoas!" - afinal, ele mora na vizinhança há 10 anos. Repetindo: 10 anos. Isso tem que valer alguma coisa. Não conversa com 90% dos vizinhos, é verdade, mas estes se lembrarão do seu rosto quando o virem em um santinho. Afinal, é impossível que, saindo todos os dias cedo pela manhã e voltando no final da tarde, os moradores dos arredores nunca o tenham visto e não saibam que ele é morador dali.

Há dias em que o Joca não sai para fazer campanha. Chega o final de Agosto, e Joca se dá conta de que não é um candidato muito conhecido, que está "descansando" enquanto o tempo passa. Percebe que não vai se eleger. Mas logo pensa: "o importante mesmo é a campanha em Setembro". E assim vai se convencendo de que a "grande virada" é possível.

Chega o mês de Setembro. Joca continua no mesmo ritmo, mas sente-se já cansado. E inseguro. Busca informações. Ao caminhar pelas ruas do bairro, nota que os muros estão coalhados de letreiros de outro candidato, que nem é morador dali. Fica indignado: "o Fulano está me roubando os votos! Pudera, ele tem dinheiro e deve estar alugando esses muros". Chega em casa deprimido. A esposa pede que Joca não se desespere. "Eu falei com a Maria da padaria, e ela disse que o voto dela é teu! Ah, e eu descobri que o Zé já falou com a mãe dele e com a mulher para que votem em ti!", diz ela. Joca faz os cálculos: entre amigos e parentes, não chega aos 150 votos.

Dia 15 de Setembro. Joca dá uma olhada no seu estoque de materiais de campanha. Ainda tem mais da metade dos santinhos que mandou fazer. Resolve guardar um para mostrar aos filhos no futuro. E compromete-se consigo mesmo a distribuir todo o material remanescente nos poucos dias que faltam para a eleição. Daí para a frente, começa a acordar cedo para literalmente esgotar as ruas do bairro com seus santinhos, colocados nas caixas de correio. Para si mesmo, diz o Joca: "Já falei com os conhecidos, agora chegou a hora de conquistar os votos dos indecisos".

Nas primeiras horas desta farta distribuição de santinhos, Joca percebe que guardou material demais para as últimas duas semanas de campanha. Pára diante de uma caixa de correio e raciocina: "O sujeito que mora nesta casa vai levar o santinho para saber meu número. Mas e a mulher dele? E o filho?", e resolve então largar 3 santinhos em cada caixa de correio. Em poucos dias, Joca entope as caixas de correspondência de todos os seus vizinhos. A maioria deles, que jamais falou com o candidato, olha para a foto e fica se perguntando: "Acho que já vi essa cara em algum lugar, mas onde?" - e o Joca segue em frente.

A esposa do Joca já se deu conta de que ele não vai ganhar. Os filhos já se deram conta. O próprio Joca, em algum canto da sua mente, sabe disso. Mas na mesa do jantar, cria suas teorias, que declama para a família tentando na verdade convencer a si mesmo. "O povo não fala, mas está guardando meus santinhos. Eu não os vejo pela calçada, enquanto os do Fulano acabam sempre na sarjeta", explica. "Minha campanha é silenciosa, a surpresa virá na urna", ilude-se. Ao mesmo tempo, começa a falar na verdadeira conspiração que está sendo armada contra ele, porque seu crescimento "está assustando as raposas velhas da política", e segue listando inimigos que o estão difamando secretamente, já com isso armando uma explicação para uma eventual "zebra" que possa ocorrer, levando-o à derrota.

Última semana de campanha. O Joca ainda tem um monte de material em casa e continua a engasgar as caixas de correio com seus santinhos. Passa em frente ao bar, e solta um santinho sobre o balcão, na ilusão de que alguém leia e decore seu número. Prende santinhos nos limpadores de para-brisa dos carros. Pega um ônibus, e vai deixando um santinho em cada banco vazio, na esperança de que o passageiro que ali sentar o leia. Prende seus santinhos nas frestas das janelas das casas, nas cercas (como se fosse um pequeno cartaz).

Dentro do partido, os políticos mais experientes só falam na tal "boca de urna", e o Joca monta sua estratégia, envolvendo toda a família. Chega o dia da eleição. Na última hora, os parentes dão desculpas para se esquivar do boca-de-urna. O próprio Joca acaba amarelando no último momento, com medo de ser preso. Apenas sai e vai votar, timidamente. A esposa leva a máquina fotográfica digital, para registrar o momento em que o Joca votará em si mesmo. Esta fotografia, mais tarde, será passada para o computador do Joca e esquecida.

À noite, saem os resultados. Joca fez 63 votos. Envergonhado, passará uns seis meses sem ir às reuniões do partido. E o resto da vida dizendo que chegou a se candidatar, mas "sabe como é que é, o Fulano pagou muita gente, o Sicrano comprou votos no bairro, e aí o candidato honesto não tem chance." Além disso, crê, dentro do partido mesmo, havia uma conspiração contra seu nome. Nunca mais concorrerá outra vez.

Não perca! No próximo texto desta série, o "Candidato Empresário".
 
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